sábado, 8 de janeiro de 2011

Sobre uma memória esquecida

Era uma manhã pequenina, uma manhã daquelas de inverno bem gelado. Uma daquelas que não te dá ânimo pra sair da cama, de jeito nenhum, não senhora. Ainda assim eu saí, pulei da bendita e vesti os casacos com os olhos ardendo. Caminhei alguns minutos a pé em direção da escola, desisti. Observei os banquinhos da praça vazios, as árvores alvoroçando com o gelado vento e resolvi me sentar. Fazer companhia às pobres e solitárias árvores.

Comecei a assoviar uma canção. Não me lembro muito bem da letra, mas com certeza falava de amor. Eu gostava do ritmo. Gostaria de cantá-la, se lembrasse da letra. Mas não lembrava. Já não lembrava de nada.

Aproximaram-se da escola alguns colegas meus, até quis acompanhá-los, até quis saudar-lhes com um bom-dia, mesmo que não quisessem me ouvir. Mas não lembrava, não lembrava de como falar com eles, não lembrava de como dar tal bom-dia. Aí, do nada, sentou-se do meu lado uma garota, conhecida minha, e ficou em silêncio.

E eu não lembrava de como era a voz dela. Aí percebi que tudo estava silencioso demais. Ela mexia os lábios com um sorriso grande, brincava com o cabelo enquanto parecia falar, falar e falar. Mas eu nada ouvia. Só via, e via. E nada ouvia.

Havia esquecido de ouvir? Mas então ela pousou a mão no meu joelho, e ainda assim tendo esquecido, senti seu toque e me sobressaltei. Era tudo muito novo. Tudo muito solitário e muito sozinho, e mesmo assim aquela criatura tão admirável continuava a falar, falar, sorrir, sorrir. E eu me quedei no meu silêncio, não lembrando de nada, não conseguindo lembrar sequer com grande esforço.

E aí eu acordei. Não havia nada para ser lembrado.

sábado, 23 de outubro de 2010

Let me roll it

E abaixo daquele telhado inclinado em diagonal, onde o sol entrava diretamente pela única janela do cômodo no entardecer, eu escutava o vinil tocar ao longe uma melodia baixa e bonita.

Tu tinhas teu corpo cansado descansado sobre a coberta grossa, enquanto eu apenas fitava fixamente o sol que se punha tão lentamente. E eu queria que tu estivesses fazendo o mesmo, mas tu estavas lá deitada, sonhando, completamente mergulhada na música que te prometia coisas que eu não ia cumprir.

E tu acreditavas que tudo aquilo um dia seria real, que tudo seria como na canção: mil flores, dolores e corazóns. Mas não, não, não. Sai daí e vem fitar o sol, ou me pega pelos ombros e me expulsa porta a fora, me faz descer as escadas determinado, me faz sentir nojo e ter consciência do que eu faço.

Não era mesmo minha intenção, mas eu vou ter que te dizer isso: não será o que tu esperas. Nem é o que tu achas que é.

Nunca existiu. Só foi uma confusão. E nem adianta vir com teu coração ferido pra perto de mim, não adianta pô-lo nas mãos. Eu, mais do qualquer, não deixaria que tu foste somente pra mim. Me deixa, te deixo. Vai ser o que tu podes livremente ser.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Ciclo Biológico

E daqueles longos caminhos e da longa estrada percorrida eu já estava cansada. Queria mesmo era fazer aquilo que outras vezes já houvera feito: me deitado na grama para que pudesse ver o céu o mais distante possível, mas ainda assim pudesse o contemplar de uma forma única. Sem ter que segurar as costas, sem ter que forçar o pescoço pra cima. Apenas como num leito de descanso, eu contemplaria o céu, e sonharia com tudo aquilo que havia em mim para ser sonhado.

Mas nunca fui muito sortuda. A grama sempre estava seca. Ainda assim, era reconfortante por um lado: a relva pinicante fazia-me não afundar tão dramaticamente aos sonhos, fazia-me ver que eu estava viva, que aquilo não era sonho nenhum, outrora realidade. Permitia-me apreciar o céu de todo, mas não deixava com que eu me deixasse levar por completa. A grama seca me agarrava ao chão, e, apesar de me permitir sonhar, fazia-me contemplar uma realidade imaginativa.

Dali brotariam meus sonhos doloridos, preso a realidade, preso àquilo que eu não tinha certeza mas queria. O que me reconfortava era que dos céus, meu manto sonhador e lunar, viria a chuva, e a chuva faria meus sonhos limitados crescerem.

Talvez, algum dia, eles atingiriam o céu.

sábado, 2 de outubro de 2010

Celeste

"Que está no espaço ou nele aparece"

Ah, então era assim que tu eras. Tu, tu mesmo que está aí parado feito um tolo nos muros deste velho mausoléu. Tu que vestes desta camisa vermelha um manto de proteção, uma barreira irredutível ao ver de outras pessoas. Mas comigo não iria adiantar não, eu via como eras tu.

E tu era indecifrável. Ah, eu gostava de me perder nos olhos escuros e comuns a imaginar coisas ao teu respeito. Era um desafio tentar saber das coisas quando, na verdade, eu nada sabia e podia saber sobre ti. Vê que bobo? E continuou lá, com os braços flácidos grudados ao peito, com pinta de encrenqueiro, só pra ninguém te reconhecer.

E no meio ao teu falso mistério torturante, eu pude - ah, como eu pude! - ver alguns dos teus aspectos. Eu pude ver nos teus olhos comuns o quanto que, na verdade, estavas tão entediado com tudo aquilo. O quanto tu não aguentavas nem a ti mesmo, o quanto precisava, na verdade, descruzar os braços, desgrudar as costas do muro de limo e sair correndo pela rua deserta.

Ah, pra mim você era um cometa perdido. Um meteoro devastado. Veio parar aqui e não encontrou ninguém, não se descobriu por ninguém, apenas caiu. Solito consigo. Mas quer o meu conselho? Sai mesmo desse muro, sai daí e parte pra briga: seja lá como tu pretendes agir, vá e faça. Porque te tornarás por aquilo que fizeres, então apenas faça.

Eu te admiro de algum jeito por tu ser desastrosamente assim, um meteoro deprimido, sem rumo definido, que caiu do céu pra mim.