segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Os olhos de vidro

Deparei-me com uma frase de Leonardo da Vinci por pura casualidade. Disse que "Os olhos são as janelas da alma e o espelho do mundo".

Entre olhos, espelhos e janelas, há fatores que os diferem minuciosamente. Os olhos não mudaram com o passar dos anos. Os espelhos são espelhos. Um vidro de reflexo que só difere-se dos outros por acabamento ou modelo, mas cuja essência permanece igual. Já as janelas, bem, as janelas de fato mudaram.

Foram já amadeiradas, envidraçadas, possuidoras de vitrais e pinturas, onde cada época e cada arquitetura as diferiam. Janelas estas que serviam para iluminar, proteger, deixar-se enxergar o que existia por fora das quatro paredes.

Casa era sinônimo de tranqüilidade, calor para o coração, descanso pro corpo. Era lugar para sentar à frente, ver as crianças brincarem nas ruas ou os cachorros correrem pelo jardim. Com o passar dos tempos, foi ficando cada vez mais fechada. Assim como seus moradores, cada vez mais inseguros e herméticos para um mundo que ainda tinha muito a ser descoberto.

A violência aumentou, precisava-se de segurança. Ergueram-se muros, ergueram-se grades. Os odores da poluição ultrapassaram os níveis normais. A jornada de trabalho ocupa mais horas durante o dia. Há necessidade de violar-se cada vez mais quando se está em casa.

Hoje, as janelas são vedadas, à prova de som, de vento, de pó. As venezianas, super-lacradas para que proporcionem um verdadeiro blackout no ambiente. Promessas comerciais de total paz e silêncio por pouco mais de duzentos reais.

Fechar-se sozinho, deitar-se no escuro, dormir e não querem ver nem ouvir o mundo ao nosso redor só me mostra o quanto a humanidade realmente mudou. Mas a realidade é que nada nos protege de uma vida sem sentido.

Não consigo ver vida nessa acomodação. Chega sim uma hora em que todo mundo cansa, mas poxa, o resto do tempo é viver! Eu, ao menos, não gostaria desse cárcere. Janelas bem abertas, vento e sol são presentes na nossa vida e estão aí para serem aproveitados, e não desprezados com engenhocas inventadas pelo homem.

Só sei que meus olhos estarão bem abertos. Mesmo quando dormem, mesmo quando cansam. Fechá-los para a vida não me encanta nem um pouco. O mesmo das janelas.

Um comentário:

  1. Muito boa crônica, muito boa mesmo e boa opinião expressa nela também.
    Parabéns!

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