Eu esperava sua chegada sentado na sacada abraçando as pernas. A ansiedade consumia-me e eu só conseguia pensar em tê-la novamente nos braços.
Balançava-me involuntariamente enquanto ouvia ao longe a explosão de risos da televisão atrás de mim, na sala. Lembrei da última vez que a vi, lembrei da alegria que dividimos... lembrei dela sorrindo-me.
Vivi claramente aquele último momento de partida. Eu, sozinho ali com o barulho da televisão, esperava-a. E esperava demais. Me dei conta que já havia esperado outras vezes, e que ela acabaria não vindo novamente. Acabei me dando conta que era mais uma ilusão. Machucado, ainda concluí que ela não deveria nem lembrar... O seu riso devia ter dissolvido qualquer mágoa e sentimento do passado. Ela não voltaria por conta do esquecimento.
Adormeci no sofá da sala, esperando por mais um dia. Mais um dia sem ela, mais um dia de espera. Tranquei-me em meu mundo, tranquei-me em meu pensamento e fiquei ali a sonhar, a esperar... a alimentar a doce e falsa ilusão. E, ao fim do dia, percebi mais uma vez que ela não voltaria.
Tive, então, que sair do meu casulo de proteção. Percorri os imensos corredores, desci quatro andares de escada. Vi a luz do dia invadir minha visão. Meus olhos arderam, desacostumados... E, então, a vida me sorriu novamente.
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
segunda-feira, 15 de junho de 2009
Sempre
A palavra sempre me atormentou, sempre me pôs a pensar. Sempre sempre deu esperança, e sempre soube esperar. Sempre me trouxe a mudança, me fez também sempre acreditar. Sempre, por mais que passado, pra sempre será: das memórias que guardo comigo sempre irei relembrar.
sexta-feira, 12 de junho de 2009
Sentido
Eu sou a música daquela noite. A angustia das palavras proferidas pelo vocalista, a tensão dos movimentos sobre o microfone. Sou a garganta em atrito, a voz ferida, as mágoas amanhecidas.
Sou aquela noite que passou. Sou as lágrimas e sou os corações. Guardo comigo os sorrisos - fossem os falsos ou os proibidos -, embora imune de todos aqueles sentimentos eu estivesse.
Estava, de fato, por todos eles. Estava estática, parada, mas mesmo assim elétrica. Eu podia sentir a adrenalina consumir ao pouco meu fôlego. Eu podia, de repente, sentir tudo ao meu redor facilmente: sem nenhuma droga, sem nenhum esforço. Apenas com os sentidos.
Meus ouvidos permaneciam atentos aos sonidos e as movimentações, minha visão era estática e conservada sobre rostos e expressões. Meu paladar era amargo, era ansioso, apelativo. Minhas mãos apertavam-se nervosas. Instigavam, agoniavam. E o cheiro que eu sentia era puro oxigênio. Puro sinal de vitalidade, porque ali estava a prova mais maravilhosa de todas: o cheiro. O oxigênio que eu estava respirando e que me deixava viva. E todas as outras coisas - as cores, os sons, os movimentos - me faziam permanecer viva. Faziam-me querer viver.
E embora eu tenha sido a canção triste, os gritos e a ância fui também a explosão, a ira, fui finalmente minha própria vida. Talvez senso e sentido não houvesse naquilo, mas de alguma forma havia sentido sim. E como havia sentido...
Sou aquela noite que passou. Sou as lágrimas e sou os corações. Guardo comigo os sorrisos - fossem os falsos ou os proibidos -, embora imune de todos aqueles sentimentos eu estivesse.
Estava, de fato, por todos eles. Estava estática, parada, mas mesmo assim elétrica. Eu podia sentir a adrenalina consumir ao pouco meu fôlego. Eu podia, de repente, sentir tudo ao meu redor facilmente: sem nenhuma droga, sem nenhum esforço. Apenas com os sentidos.
Meus ouvidos permaneciam atentos aos sonidos e as movimentações, minha visão era estática e conservada sobre rostos e expressões. Meu paladar era amargo, era ansioso, apelativo. Minhas mãos apertavam-se nervosas. Instigavam, agoniavam. E o cheiro que eu sentia era puro oxigênio. Puro sinal de vitalidade, porque ali estava a prova mais maravilhosa de todas: o cheiro. O oxigênio que eu estava respirando e que me deixava viva. E todas as outras coisas - as cores, os sons, os movimentos - me faziam permanecer viva. Faziam-me querer viver.
E embora eu tenha sido a canção triste, os gritos e a ância fui também a explosão, a ira, fui finalmente minha própria vida. Talvez senso e sentido não houvesse naquilo, mas de alguma forma havia sentido sim. E como havia sentido...
sexta-feira, 5 de junho de 2009
1º Ato - A descida
Observe, por favor: olhe onde eu realmente estava. Inacreditável, eu sei. Mas ali, parada ao primeiro degrau de descida da enorme escada eu estava.
Olhei a baixo e vi o burburinho aumentar. As conversas correram num sussurro perigoso por todo o salão. As moças bonitas, cheias de cobiças apertaram as mãos. Rezavam para que eu caísse, logo ali naquele imundo chão.
Sentei-me no degrau. Escutei um lamento falso vindo de todas as gargantas. O burburinho cessou atordoado, mas logo recomeçado, voltou-me atordoar.
Levei a mão aos cabelos, desfiz meu penteado. Tirei do cabelo preso a presilha e balancei os cabelos sobre os ombros. O burburinho voltou a cessar.
Imagine o que não pensaram e conspiraram. Quão louca era a pobre menina daquela riquíssima corte? Quão louca era aquela que sempre tão bem portada e boa moça pareceu ser?
Pois aí observas. De nada eles conheciam-me. De nada me poderiam julgar. Porém mesmo assim o faziam, burburinhavam... As moças cobiçosas logo se alegraram ao ver minha vergonhosa situação diante de tal sociedade. Mas vergonha nenhuma eu possuía, pelo contrário, o orgulho me consumia naquele momento inesperado.
Desci as mangas compridas do vestido e o abaixei aos poucos. Restou-me o traje de baixo, a fina casca por assim dizer. E dessa forma, quase que solta, mas não totalmente a vontade, eu me pus finalmente a descer as escadas, um pouco mais calma.
Queria ter eu chegado assim, como eu mesma era, finalmente ao fim.
Olhei a baixo e vi o burburinho aumentar. As conversas correram num sussurro perigoso por todo o salão. As moças bonitas, cheias de cobiças apertaram as mãos. Rezavam para que eu caísse, logo ali naquele imundo chão.
Sentei-me no degrau. Escutei um lamento falso vindo de todas as gargantas. O burburinho cessou atordoado, mas logo recomeçado, voltou-me atordoar.
Levei a mão aos cabelos, desfiz meu penteado. Tirei do cabelo preso a presilha e balancei os cabelos sobre os ombros. O burburinho voltou a cessar.
Imagine o que não pensaram e conspiraram. Quão louca era a pobre menina daquela riquíssima corte? Quão louca era aquela que sempre tão bem portada e boa moça pareceu ser?
Pois aí observas. De nada eles conheciam-me. De nada me poderiam julgar. Porém mesmo assim o faziam, burburinhavam... As moças cobiçosas logo se alegraram ao ver minha vergonhosa situação diante de tal sociedade. Mas vergonha nenhuma eu possuía, pelo contrário, o orgulho me consumia naquele momento inesperado.
Desci as mangas compridas do vestido e o abaixei aos poucos. Restou-me o traje de baixo, a fina casca por assim dizer. E dessa forma, quase que solta, mas não totalmente a vontade, eu me pus finalmente a descer as escadas, um pouco mais calma.
Queria ter eu chegado assim, como eu mesma era, finalmente ao fim.
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