Estou indo aí pra dizer que está tudo bem. Não, isso não ficou bom. Estou indo aí para finalmente poder dizer que tudo está bem. Sim, é óbvio que você vai pensar que sou uma louca, e eu só estou confundindo mais a você e a mim mesma, afinal de contas... mas não importa. Não, isso também não ficou bom.
Quem sabe assim... um dia desses, eu caminho pela rua (você não sabe, mas deveria saber), sem rumo, pensando em talvez ir comprar uns livros ou talvez ir ao cinema sozinha, ou talvez tomar um café no parque - esses talvezes que a gente fica planejando e acabam não acontecendo (mas que dessa vez acontecem). Aí eu estou nessas de me perder e encontrar sozinha, caçando coisas pelas quais me daria prazer passar a semana, e eu te vejo num desatino atravessando a rua, teu jeito contido e exacerbado, aquelas coisas que só quem ama consegue ver, sabe? Então quem sabe eu sorria feito uma louca, finja que não te vi, fique cá comigo na minha solidão caminhando meu ódio naquela rua... E fico pedindo baixinho, como todas as outras vezes, pra que me veja, veja, veja, e fale, fale, fale... Porque aí de repente já não me perco mais. E aí há um motivo para tomar café no parque, o cinema não será sozinho e os livros não serão os mesmos que eu compraria (você sabe, não ia ser como o planejado...). Mas como eu sei do meu desatino, nada disso vai acabar acontecendo. Então eu fico em casa, trancada, olhando pela janela a rua que eu não gosto lá fora. Escrevendo coisas e lembrando outras, planejando roteiros na minha cabeça, rindo de mim mesma e das coisas que eu mal penso, coisas que só sinto e nem planejo sentir. No fim do dia, deito na cama e fico pensando na manhã seguinte. Acordarei, tomarei café (teu gosto sempre na minha boca), e na caixinha do correio uma carta tua... uma carta vazia cheia de papéis, onde eu poderei escrever meu roteiro e viver meu filme, onde talvez eu encontre respostas pra essa peça da minha cabeça. Aí um dia, talvez, quando eu lançar o dito, você venha falar comigo sobre o nosso passado, essas coisas que eram pra ter acontecido e não foram e eu te sorrir mais uma vez, e pedir baixinho mais uma vez, e concluir, rindo de mim, da minha loucura, da minha imaginação criativa, vou pedir um abraço e dizer "Foi lindo". E só.
segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
Lençóis
Então talvez eu seja obrigada a voltar a ser quem eu fui um dia, talvez eu seja obrigada a pôr o coração nas mãos mais uma vez e ter que aguentar vê-lo sangrando em disparada. Talvez eu tenha que correr atrás dela, talvez tenha que correr atrás de você... mas já não sou como fui ontem. Já não me parece ter tanta força pra puxar teu braço e dizer tudo que eu deveria ter dito há muito tempo atrás, entende? Porque não é como se fosse difícil... não é. Mas eu tenho medo de te por a minha frente, e falar sobre as estepes, sobre os lobos, sobre o tempo e sobre as dores e resgatar tudo que um dia eu senti, resgatar a linda memória que hoje já me põe pra baixo, porque eu estou sendo obrigada a deixar de ter isso tudo. E talvez eu pudesse então correr atrás dela, mas não quero fazer as coisas como se fosse uma desculpa, não quero fazer pra preencher o vazio, entende? Talvez ainda um dia desses eu preencha mil linhas e as enderece pra ti. Aí poderás entender. Como num sonho, meu coração não bate, como num sonho, tudo continua intacto, mas talvez eu seja obrigada a voltar... E como num sonho, eu sei que tenho que acordar.
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
Mirabile dictu
Alice tinha nove anos quando aquilo aconteceu. Eu lembro de estar sentado na cama, tinha a recém acordado, a cortina tava meio aberta quando eu espiei pro andar de baixo e vi seu corpo magricela esparramado no jardim. Achei estranho, senti medo. Mas vi que os olhos dela tavam abertos e vez ou outra um riso ameaçava brincar no seu rosto pequenininho. Ela usava um vestido amarelo, da cor do sol que brilhava ainda fraquinho, brigando com as nuvens por um lugar no céu ali do bairro. De um minuto pr'outro, vi Alice agitar o corpo contra o gramado novo, e achei aquilo muito estranho. Me deu medo de novo. Pulei da cama e calcei os chinelos, abrindo a porta e correndo escada abaixo, ouvi mamãe gritar alguma coisa, mas fui mais rápido ao abrir a porta e saltar ao encontro de Alice (que naquela época tinha nove anos...).
Atirei-me ao lado dela e segurei seu ombro, sacudindo-a.
- Alice! O que tá fazendo?
Ela riu - e eu achei aquilo tão divertido, a pesar do medo que eu tava sentindo!
- Vem! - ela segurou meus cotovelos e começou a se mexer, eu dei um pulo pra longe dela. Mamãe apareceu na porta e eu vi nela um olhar estranho, coisa que nunca antes tinha visto.
- Gabriel, tu estás de pijama! Vem já pra dentro. Alice, sua mãe sabe que você está aqui?
Assim que Alice ouviu a voz de mamãe, ela deu um salto do chão. O vestido amarelo-sol agora dividia lugar com um pouco de terra e lutava com o sorriso de Alice, pra ver qual chamava mais atenção.
- Deixa o Gabriel brincar lá em casa, tia.
- Minha querida, vai pra casa - mamãe disse, me puxando pelo braço e se abaixando pra espanar a terra dos meus joelhos.
Alice olhou pra ela com aquele sorriso, e eu não entendi absolutamente nada do que tinha acontecido ali, naquele dia, quando Alice tinha nove anos e eu, vinte e cinco.
Atirei-me ao lado dela e segurei seu ombro, sacudindo-a.
- Alice! O que tá fazendo?
Ela riu - e eu achei aquilo tão divertido, a pesar do medo que eu tava sentindo!
- Vem! - ela segurou meus cotovelos e começou a se mexer, eu dei um pulo pra longe dela. Mamãe apareceu na porta e eu vi nela um olhar estranho, coisa que nunca antes tinha visto.
- Gabriel, tu estás de pijama! Vem já pra dentro. Alice, sua mãe sabe que você está aqui?
Assim que Alice ouviu a voz de mamãe, ela deu um salto do chão. O vestido amarelo-sol agora dividia lugar com um pouco de terra e lutava com o sorriso de Alice, pra ver qual chamava mais atenção.
- Deixa o Gabriel brincar lá em casa, tia.
- Minha querida, vai pra casa - mamãe disse, me puxando pelo braço e se abaixando pra espanar a terra dos meus joelhos.
Alice olhou pra ela com aquele sorriso, e eu não entendi absolutamente nada do que tinha acontecido ali, naquele dia, quando Alice tinha nove anos e eu, vinte e cinco.
sábado, 3 de dezembro de 2011
Aviamentos
É somente aquela sensação de que o céu está claro e o sol brilhando, e o fulgor do coração contente e relaxado bombeando sobriedade e contentamento pra todo o resto do corpo, que com os passos tortos segue caminhando, uma mochila nas costas - sem muito peso - e a cabeça costurando atrações.
Já não é mais hora de inventar, é hora de tramar as peças: chega de procurar, buscar, pensar, mastigar as palavras encarceradas na cabeça. É hora de pinçar e juntar todas as sílabas, todos os sentimentos, toda a emoção. É hora de pegar tudo e jogar numa mistura, nessa mistura inusitada que é viver com paixão. Saber envolver em abraço quem passa e encanta, saber que sonhar já não é solução. E assim, tenho esclarecimentos, a vida vai jogando pistas no meu caminho sujo, e meus passos tortos já não se enganam. Os lábios sorriem, estimulados pela sobriedade e pelo contentamento; e ao lembrar de ti eu já sou sol garoa e vento e volto sempre a ser o que sou. Entende a magia do caminho? É só seguir, só seguir... E às vezes a gente ainda acha que é demais. Com amor, sempre é demais... Porque o coração que pulsa necessita de motivo pra pulsar cada vez mais. E nessas, de motivo, desejo, confusão, desassossego, a gente tira dele a sobriedade; e o contentamento. Nada que uma boa mão não alinhave.
Já não é mais hora de inventar, é hora de tramar as peças: chega de procurar, buscar, pensar, mastigar as palavras encarceradas na cabeça. É hora de pinçar e juntar todas as sílabas, todos os sentimentos, toda a emoção. É hora de pegar tudo e jogar numa mistura, nessa mistura inusitada que é viver com paixão. Saber envolver em abraço quem passa e encanta, saber que sonhar já não é solução. E assim, tenho esclarecimentos, a vida vai jogando pistas no meu caminho sujo, e meus passos tortos já não se enganam. Os lábios sorriem, estimulados pela sobriedade e pelo contentamento; e ao lembrar de ti eu já sou sol garoa e vento e volto sempre a ser o que sou. Entende a magia do caminho? É só seguir, só seguir... E às vezes a gente ainda acha que é demais. Com amor, sempre é demais... Porque o coração que pulsa necessita de motivo pra pulsar cada vez mais. E nessas, de motivo, desejo, confusão, desassossego, a gente tira dele a sobriedade; e o contentamento. Nada que uma boa mão não alinhave.
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